No ambulatório onde trabalho atendo muitos pacientes com paralisia cerebral e tenho aprendido muito com eles e seus familiares ultimamente. A força para aceitar a deficiência, vencer barreiras da incapacidade motora, o esforço para deixar de lado o preconceito e a luta diária para sobrevivência.

A paralisia cerebral (PC) afeta principalmente o sistema nervoso central (SNC) e leva a criança à dificuldades  motoras. A lesão neurológica é permanente.

O que acontece?

As causas podem ser diversas e geralmente ocorrem desde antes do bebê nascer até dois anos de nascimento.

As causas pré natais são de origem materna, as quais envolvem doenças como rubéola, toxoplasmose, hipertensão, diabetes, ou o uso de substâncias tóxicas (álcool, drogas e tabaco). Durante o trabalho de parto e o nascimento também podem gerar lesões ao SNC, a prematuridade, baixo peso ao nascer, trabalho de parto muito demorado com sofrimento fetal, hipóxia (falta de oxigênio), ingestão de mecônio (líquido da placenta), entre outras complicações. E após o nascimento até dois anos de idade, período de maior fragilidade e desenvolvimento, doenças como a meningite e traumas cranianos podem levar a danos irreversíveis na criança.

E como descobrir a Paralisia Cerebral?

Os sintomas são variáveis: crises convulsivas, dificuldades de para andar e engatinhar, visuais, auditivas e de fala, deficiência intelectual, dificuldades para alimentação e consequente desenvolvimento no crescimento e ganho de peso.

Existe tratamento?

A paralisia cerebral não tem cura, por se tratar de um dano irreversível ao SNC, assim o objetivo do tratamento é permitir que a criança desenvolva ao máximo o seu potencial em todos os aspectos da sua vida. Para isso, uma equipe multiprofissional é acionada para trabalhar todas as áreas da criança: neurologista, pediatra, gastroenterologista, fisioterapeuta, terapeuta ocupacional, fonoaudiólogo, nutricionista, psicólogo, assistente social, educador físico, enfermeiro, entre tantos outros. Essa equipe irá estimular e reabilitar essa criança de acordo com o seu prognóstico e evolução.

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equipe multi

Complicações na alimentação

Deglutição

Sendo o sistema motor o mais afetado, os movimentos necessários para receber o alimento, mastigar, organizá-lo dentro da boca e engolir tornam-se muito complexos sendo precisas adaptações na consistência e nos utensílios. Com o auxílio de um fonoaudiólogo, sabemos se a deglutição é eficiente ou não, ou seja, se não há o risco da broncoaspiração (quando o alimento vai para a traquéia ou invés do esôfago, caindo nos pulmões e não no estômago). Ele avaliará , dessa forma, qual a consistência do alimento mais segura para que essa criança possa se alimentar bem.

A  fonoaudióloga Tatiana Allegretti, nos fornece outras informações: “temos atuação direta na função de deglutição fazendo estímulos olfativos e gustativos para o desenvolvimento dos músculos faciais. O que não podemos esquecer é que a criança tem o desenvolvimento das papilas gustativas através dos receptores  das mãos e dos pé, assim a estimulação nesses membros faz a criança iniciar a seleção dos alimentos.”

A consistência varia bastante, desde tudo liquidificado, ou amassado, em pedaços bem cozidos até uma alimentação normal dependo do grau dessa disfagia (dificuldade em deglutir).Caso identifique o risco da broncoaspiração, a alimentação via oral – pela boca – torna-se um risco, sendo necessário outra via de alimentação com a passagem de sondas nasogástricas, ou até mesmo a colocação de gastrostomia. Mas isso é assunto para outro post!

Desnutrição e obesidade

Muitos pacientes possuem movimentos espásticos (movimentos involuntários e repetitivos com muita rigidez muscular) gastanto muita energia; ou mesmo pela dificuldade na alimentação, assim acabam perdendo muito peso. Em contra partida, o sobrepeso e a obesidade também é presente naqueles que pouco se movimentam ou não  tiveram estímulos.

Outras complicações

Constipação, deficiência de ferro, vitaminas do complexo B e vitamina D também podem ocorrer.

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A paralisia cerebral é complexa e varia pra cada paciente dependendo do grau de lesão cerebral. Dessa forma, cada paciente é tratado de maneira individual.

Apesar de toda deficiência física e motora, o intelectual se preserva de alguma forma. A expectativa de vida tem aumentado com todas as terapias e avanços na medicina. Devemos respeitar essas pessoas e seus familiares que tanto lutam pela sobrevivência, independência e lugar no mundo!

Beijos =**