O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do desenvolvimento que envolve prejuízos em diferentes áreas. Segundo a última edição do Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais, o chamado DSM-V (que é um guia de classificação diagnóstica), uma pessoa com TEA deve apresentar necessariamente alterações em dois aspectos:

A. Déficits sociais e de comunicação: dificuldade em desenvolver e manter relacionamentos, falta de interesse em interações sociais, dificuldade em se envolver em atividades sociais, pobre comunicação não verbal (dificuldade no contato visual, postura, expressões faciais, tom de voz e gestos).

B. Comportamentos repetitivos e restritivos: apego extremo a rotinas e padrões, resistência a mudanças nas rotinas, comportamentos motores ou verbais repetitivos e estereotipados, rituais rígidos e interesses intensos e restritivos.

Além dessas alterações, outros sinais são geralmente observados em crianças com TEA, sendo que muitos deles podem ser detectados desde os primeiros anos de vida: ausência de resposta ao ser chamado pelo nome (alguns pais se perguntam se a criança é surda), hipersensibilidade sensorial em um ou mais sentidos (visão, audição, olfato, tato e paladar), contato visual reduzido, capacidade de memória surpreendente, comportamentos agressivos ou auto-agressão, gritos ou risadas descontextualizados, desatenção e alimentação seletiva.
Apesar das pessoas com TEA partilharem características comuns, o seu estado pode afetá-las com intensidades diferentes, sendo que essas características podem ser bastante evidentes, trazendo limitações significativas para a pessoa, ou podem ser sutis, passando até mesmo despercebidas em alguns contextos. Além disso, nem todas as crianças apresentam todas as características. Somente uma avaliação cuidadosa, com uma equipe profissional experiente, pode confirmar a presença do TEA.

Alimentação seletiva

​Nesse post, irei focar na última característica citada: a alimentação seletiva. Segundo algumas pesquisas, o número de transtornos relacionados à alimentação em crianças com TEA é alto podendo chegar a 90% dos casos. Se avaliarmos algumas características típicas do TEA, conseguimos compreender como a alimentação é afetada. Vamos lá:

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• Alteração Sensorial: como o paladar e o olfato podem ser muito sensíveis, isso dificulta a aceitação de alguns alimentos, restringindo bastante a variedade da alimentação.

• Rigidez e inflexibilidade: esses rituais também podem dificultar a aceitação de novos alimentos. Existem crianças com TEA que passam anos comendo um ou dois tipos de alimentos.

• Baixo tônus muscular na região do maxilar: a ausência de mastigação, perante a restrição alimentar, evidentemente dificulta o desenvolvimento dessa musculatura.

autismo

Diante desse quadro, muitos pais de crianças com TEA se perguntam como devem agir. Forçar a criança a comer? Respeitar a seletividade da criança e deixá-la comer somente o que quiser? A resposta poderia ser algo como o nome desse blog “nem demais nem de menos”, ou seja, nem um extremo nem outro! Algumas condutas podem ajudar a criança a superar (ou pelo menos melhorar) a restrição alimentar sem que seja necessário o uso da força.

• Se a criança recusar algum alimento, não desista de oferecê-lo novamente. Insista de diferentes formas. Em algum momento, provavelmente a criança irá aceitar prová-lo.

• Quando a restrição alimentar é mais severa, uma sugestão é acrescentar alimentos nutritivos de forma sutil e “escondida” nas receitas (quem nunca tacou uma fruta ou legume bem disfarçado em algum molho ou vitamina?).

• Outra sugestão importante: não caia na rotina! Crianças com TEA já são sistemáticas e rotineiras, se você oferecer sempre o mesmo alimento em cada refeição, isso pode fortalecer ainda mais esse padrão! Procure variar, por mais difícil que seja.

• Tenha uma exigência gradativa. Deixe a criança primeiro tocar o alimento, depois cheirar, lamber, dar uma pequena mordida, cuspir, começar tudo de novo, e assim por diante. Um passo de cada vez.

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• Um clichê, mas que não deixa de ser importante: capriche na apresentação dos pratos. Seja criativo, use sua imaginação. Quanto mais atraente o prato, maior a chance de despertar interesse na criança.

• Por último, mas não menos importante: tenha sempre uma equipe médica avaliando a saúde da criança de forma que você possa amenizar as consequências possíveis de uma alimentação seletiva e restritiva.

Muita paciência e determinação são necessárias para conduzir tal situação. Uma equipe multidisciplinar pode – e deve – estar presente para ajudar a tornar o momento da refeição em algo menos desgastante e desafiador. Psicólogos, nutricionistas, fonoaudiólogos e médicos podem oferecer um suporte extremamente válido nesse processo!